A Mulher


A MulherA Mulher, texto escrito a partir de um conto de Simone de Beauvoir compilado no livro A Mulher Desiludida, trata-se de uma prova de fogo, movida a uma intensa paixão, verdade que perpassa cada cena.

Leia sobre a inspiração e as impressões relatadas pela atriz Sílvia Monteiro e pela atriz e diretora Lala Schneider.


Assistindo ao filme Eclipse Total, ouvi da formidável Kathy Bates a seguinte frase: “Muitas vezes, a única arma que resta a uma mulher é ser chata”.

Com medo de sermos chatas, não conversamos, não discutimos, fazemos de conta que a respeito da situação feminina na sociedade tudo já foi dito, ou melhor, resolvido.

Quando Lala me apresentou a idéia do espetáculo, fiquei encantada com a possibilidade de um mergulho cênico profundo que traria à tona a alma complexa de uma mulher, cercada pelos filhos, ex-maridos, amantes, pais, amigos e fantasmas.

Preparei o texto A Mulher, sem medo de ser indiscreta e sem medo de ser “chata” ao expor a intimidade dessa mulher. A nossa Mulher não apresenta a “moral da história”, nem aponta inocentes ou culpados.

Graças ao ofício de atriz, tenho estado com freqüência, na pele de outras mulheres, aprendendo que apesar da diversidade de personalidades, de histórias pessoais, de idade, ha entre todas nós, muitos pontos em comum.

Me solidarizo com as mulheres que assumiram todos os seus papéis, e tomaram as rédeas de suas vidas e lutam para dar-­lhe êxito; mas ao representar a Muriel, a nossa Mulher, lanço um olhar, também solidário, as mulheres que não o conseguiram.

Sílvia Monteiro


Quando li Simone de Beauvoir, há muitos anos, pensei…

- Oh, meu Deus! Porque eu não tenho 30 anos menos para viver essa personagem?! Muriel… Muriel. .. Essa idéia me perseguiu por muito tempo, então pensei:

- Porque não dirigir?

E lembrei da Sílvia. Conheço seu valor desde que foi minha aluna no Curso Permanente de Teatro do Guaíra nos anos 80. Entreguei a ela o livro com a idéia de que transformasse o conto O Monólogo em um texto onde Muriel vive com personagens feitos de suas lembranças. Assim, oito atores levam para o público o complicado mundo da mulher.

Dirigir tal texto extraído de um conto de Simone de Beauvoir, com uma atriz de grande sensibilidade como Sílvia Monteiro, num palco com todo conforto e infra­estrutura como o Lala Schneider foi muito tranquilo.

Tranquilo, mas com um resultado surpreendente e apaixonante, que o nosso público poderá confirmar. Isso, eu garanto.

Lala Schneider

Gênero: Drama
Texto: Sílvia Monteiro
Direção: Lala Schneider
Elenco: Sílvia Monteiro, Ceres Vittori, Fernando de Proença, Célia Ribeiro, Henrique Bonameti, Lucas Francisco e Anderson Carlos
Ano:: 1999
Teatro: Lala Schneider e Novelas Curitibanas


Crítica Gazeta do Povo
José Carlos Fernandes

Um Retrato de Mulher

Monólogo de Sílvia Monteiro se assemelha a tubo de ensaio em que borbulham as angústias femininas

A Mulher, em cartaz no Teatro Lala Schneider, é uma espécie de decreto de maioridade da atriz cutibana Sílvia Monteiro. Embora elaa já não precise provar seus mitos recursos, o monólogo que ora faz tem um sabor de exame admissão. E tanto mais em se falando de um texto de autoria própria, escrito a partir de um conto de Simone de Beauvoir compilado no livro A Mulher Desiludida. Esta soma não deixa dúvida – trata-se de uma prova de fogo, movida a urna intensa dose de paixão, verdade que perpassa cada cena do espetáculo.

Sílvia não se arriscaria tanto caso não tivesse munição suficiente para queimar até o último cartucho. As primeiras entradas de Muriel, sua personagem, justificam a comparação. Está ali unia mulher chata, inconveniente e desaforada. Uma antipática de plantão. Sequer dá tempo de sentir pena dela. Nem bem afloram os pudores cristãos e a platéia já está tomada pelo mal-estar. Colocar uma criatura assim sob os holofotes é mesmo um jogo perigoso. Mas Sílvia tem estratégias para segurar na poltrona pessoas que não lhe devolverão nenhuma réstia de cumplicidade.

Seu maior trunfo é deixar emergir a coerência que ainda resta a uma personalidade dignida de camisa-de-força, cultivadora do “Venha a nos o vosso reino”. Como o desfecho de sua trajetória afetiva está mais para Carolina de Jesus em Quarto de Despejo do que para Grace Kellv em Alta Soiedade, age como se ti esse sido vítima de uma conspiração do destino. Quem, aos 40 anos, sentindo os efeitos da lei da gravidade, não reclamaria aos berros a azeitona roubada da empada? “Eu a defenderia”, disse Sílvia por ocasião do lançamento da peça. E de fato defendeu.

Ela o faz a cada vez que Muriel substitui a amargura por um excitante jogo de faz-de-conta recheado de risinhos histéricos – encenação acompanhada de um vestido de noite que coloca como quem se apronta para o último baile. Logo se vê que a loba tem cadáveres guardados no armário e que vai atirá-los contra o público com a classe de quem joga um lencinho de cambraia ao chão. Estes instantes de humor nervoso são os melhores de A Mulher, pois justamente neles Sílvia Monteiro consegue traduzir a complexidade de sua criatura – um bibelô lascado que não mais habita a mesa da sala: uma bonequinha de luxo relegada ao elevador de serviço. Como nada mais tem a perder, tudo pode dizer.

A esta altura Muriel vale por mil e uma tolas mocinhas casadoiras e não merece censura por querer transformar num épico sua biografia de decepções burguesas e baratas, mas nada impróprias para as mulheres que fazem o balanço final deste breve século 20.

Gazeta do Povo – José Carlos Fernandes


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