A Volta ao Lar


A Volta ao LarA Confraria Cênica Ltda., encontrou em Harold Pinter um parceiro na solidão. Nosso principal tema, abordado em todos nossos espatáculos: O BOCA ROSA (96), O SOFÁ (99), A MULHER (99), NOVEMBRO (00) e até mesmo no infantil O JUCA NA CAIXA (98).

Todos espetáculos que contaram com apoio de Leis de Incentivo à Cultura, tanto a Municipal, quanto a Federal. Em A Volta ao Lar, obtivemos incentivo de ambas as Leis, e cumpre agradecer às empresas que nos apoiaram via incentivo fiscal e ao Projeto COnta CUltura (uma grádavel e esperamos duradoura realidade, Projeto da Secretaria de Estado da Cultura), que nos proporcionou a captação de recursos da Lei do Mecenato, que incentiva projetos (via abatimento bo IR), junto a COPEL, nossa parceira desde a montagem de O SOFÁ. Agradecemos também a Rosangella de Cássia, outra parceira de anos a fora…

Agora, em dívida ficamos mesmo com nossos atores convidados: João Paulo Leão, Najda Naira e Edson Bueno, e essa dívida só podemos pagar oferecendo a todos toda a seriedade do nosso espetáculo.

Gênero: Drama
Texto:
Harold Pinter (tradução de Sílvia Monteiro)
Direção: Sílvia Monteiro
Elenco:Luiz Carlos Pazello, João Paulo Leão, Nadja Naira, Edson Bueno, Lucas Francisco e Anderson Carlos
Ano: 2001
Teatro: Espaço 2


Crítica Jornal Do Estado
Fernando Klug

A falta de esperança do pós-guerra ecoa nesse início de milênio. Em cartaz, a família. A dificuldade das relações. A solidão. E A Volta ao Lar de Harold Pinter, espetáculo denso e revelador em sua crueldade que a Confraria Cênica nos traz no Espaço Dois. Isolados em seus tronos (ou esconderijos) caseiros – os homens da família do patriarca Max, reduzidos a coisas, vomitam sua neurose no vazio. Lembranças de um passado que parece não ter sido, não realizado, projeções de um pálido futuro, e o nada no meio. Existências efêmeras como as corridas de taxi, as lutas de Box, a prostituição. Jogos de perder e ganhar, nada a acrescentar.

A visita do ‘filho pródigo’ Teddy ao lar, após ter casado e se tomado professor de filosofia no ‘novo mundo’ Americano, faz ressaltar o contraste. Talvez a gritar pela necessidade de um sentido, Pinter testa este personagem entre as feras acuadas. E perde. As feras se apropriam inclusive de Ruth, mulher de Teddy. Ela, mãe de três filhos homens (para orgulho do patriarca), já se revela no primeiro passo casa adentro o que foi a esposa de Max: prostituta da família, loba a amamentar todos os homens. Que mulher é essa?

Num cenário essencial, composto de objetos e ambientes sempre pequenos e inadequados ao uso, compostos de sucata ou do que restou, cada personagem tem seu espaço particular.

Pouco se olham e muito se batem. Gritam, aos trancos, seus monólogos doídos, agressivos. Quando não em cena, podem ser vistos em suas celas, recolhidos em si próprios. O velho Max, mesmo quando recluso, em momento algum deixa a ação. Seus olhos podem ser vistos pela casa inteira.

Mesmo neste quadro casa — traçado desde há muito tempo a atitude do filho que volta é sempre a mesma: Teddy quer matar a saudade, a saudade de si mesmo naquilo que aprendeu a ser ‘seu lar’. A casa o recebe, há um quarto vazio que o espera, mas logo percebe não caber mais no lar.

A direção de Silvia Monteiro é exata, pontuada. Nos coloca num submundo para o qual tem que se descer para entrar. Um submundo que, a lembrar a lenda do filho pródigo, tem um ar de eternidade. Com atenção se perceberá que os diálogos do texto são coloquiais, mas na interpretação saltam as minúcias, os sentimentos dissimulados. E o discurso mais presente nessa Volta ao Lar.

A criação dos atores e direção fez surgirem personagens fortes, coesos, individuais e no entanto complementares. Equilíbrio difícil de alcançar. Luiz Carlos Pazello, como Max, traz a marca do grande ator. Num trabalho físico de caracterização que há tempos eu não via, é um show à parte, denso e perene qual um rei Lear. Apenas a interpretação de Edson Bueno carece de calibragem. Não é à toa. Em contraste com a linha de atuação usada para o resto da família — em cores carregadas — o personagem Teddy traz sutilezas realistas e uma certa feminilidade (que o aproxima de seu tio homossexual, Sam). Ele parece quase sumir, às vezes, como aquarela perdida em meio a espatuladas raivosas.

Jornal do Estado – Fernando Klug


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