Fábulas Curitibanas


Fábulas CuritibanasFábulas Curitibanas relembra fatos que marcaram época na cidade, como o dia em que um zepelim sobrevoou a catedral, e as vitórias e fracassos do Ipiranga futebol Clube. Dos dias atuais, faz referêcias às estações de ônibus e do jeito parisiense do curitibano.

O Estado do Paraná


O Vencedor

Tinha mudado para Curitiba no tempo da Erva-Mate. A cidade começava um ciclo de prosperidade e ele queria, como muitos imigrantes, fazer a vida nessa terra boa, fria e chuvosa.

A geada era braba, mas ele acordava cedo para cuidar da serraria da família, lá pros lados da Marechal, bem pertinho dos vidreiros. Com o trabalho ganhava seu dinheiro e com o dinheiro comprava terras e mais terras. A empresa, vez por outra, podia até passar por alguma dificuldade, mas ele não vendia sequer um palmo de sua suada e bendita terrinha. Sua chácara, já com muitos arrendatários, valia uma fortuna, ainda mais tão perto do centro, com a Marechal cortando-a pelo meio. As prefeituras sempre fizeram e continuarão fazendo vias para beneficiar donos de terra, de muita terra. O terreninho do pobre nunca vale nada antes dele vender.

Tempo passa. O incorporador casou, teve seus filhos, e eram muitos, afinal o velho era de pouca conversa e muita ação.

A chácara de que se tanto orgulhava, tornou-se um bairro, isso muito antes da Curitiba do primeiro calçadão. Os filhos, agora à frente do negócio, pensavam mais na ciranda financeira que no fazer dinheiro investindo e preservando patrimônio… melhor o juro da poupança, do open, do over ou da própria agiotagem, feita descaradamente entre os próprios funcionários. Faça-se justiça, não eram juros extorsivos, apenas altos demais para o rendimento da poupança, mas quem ligava?

O velho nunca se conformara com a decisão dos filhos de vender sua chácara central e, mesmo tendo passado o comando dos negócio, resolveu tomá-lo de volta. Assim fez, e descobriu quanto dinheiro tinha de fato. Uma barbaridade e meia de dinheiro. O que fez então o velho? Comprou terras. Terras por todo o Brasil (menos no nordeste, que lá coronel não vende, e nem no interior do Paraná, que em máfia armada não se mexe). Os filhos começaram a estranhar tanta terra e tão pouco dinheiro para girar, mas fazer o quê?… o velho é quem manda, tá tudo no nome dele. Só que o velho começou a dar mostras de ter ido longe demais. Além de terra imóvel, começou a comprar terra móvel, ou seja, comprava baldes de terra e espalhava-a pelo quintal de sua casa. Já era meio quarteirão de terreno, e meio daqueles que podiam ser dois…e o velho jogando balde de terra lá dentro todo dia. A vizinhança, sabendo que o velho pão-duro estava doidão, fez muita piscina no quintal, para enchê-lo dessa nossa terra vagabunda… e o velho comprava. Comprava pó da cozinha das donas de casa, comprava barro de olaria, comprava tijolo, comprava cerâmica, enfim, enlouqueceu por terra.

A fixação era tanta que chegou a vender um apartamento no Mato Grosso para comprar uma entrega de terraplanagem, feita nos arredores, pretendendo com isso – este era o real plano – recuperar sua chácara na íntegra.

Aí era demais. Os filhos chamaram a polícia, que prontamente desceu o cacete em todos os que tinham enganado o velho, e nalguns que nem conheciam o biruta, mas tiveram que devolver o que não pegaram. No fim, o meio a meio ficou bom e a família voltou a ficar bem ricona.

O velho foi decrepitando cada vez mais. Começou a xingar os filhos de ladrões todo santo dia, por mais de 5 anos, até que chegou sua hora, aliás já há muito esperada pelos entes queridos.

Cercaram a cama do patriarca, chucro e trabalhador para dar-lhe uma boa partida. Só que o velho, mesmo morrendo, não cansava de xingar e gritar aos quatro ventos que os filhos estavam roubando seu dinheiro, que o queria de volta para comprar terra, que queria, que queria e que queria.
O lamento foi tanto, que comoveu os netos. Foram falar com o velho, explicando que o dinheiro estava aplicado, que estava girando. O velho não acreditou que o seu dinheiro pudesse ter saído para dar uma voltinha e chorou copiosamente, perguntando aos céus por que tanto sofrimento para homem que trabalhou tanto pelo bem da sua família?

Era um sábado, e naquele tempo ainda não existiam os bancos 24 horas. Como conseguir dinheiro pro velho ir para o inferno de uma vez por todas e parar de se lamuriar tanto? O caçula saiu correndo do quarto da morte e ficou sumido por quase uma hora. Quando voltou, pediu para todos saírem. Cinco minutos depois os irmãos voltavam ao quarto, o patriarca morto, e viram no aposento escuro um maço de notas grandes, espalhadas sobre a cama do velho. O caçula saiu, e apesar do velho morto, os outros abriram as cortinas para poder recolher o dinheiro.

Que grande idéia teve o moleque, pensaram todos, enquanto recolhiam as notas de jornal que o velho contou no escuro até morrer.


O Dia em que a Rua XV Alagou

O sombra estava lá, ridicularizando um gordo. A caricatura medíocre ficou leve e imbecil, Supondo que a realidade desvie o sentimento comum, vidrando o ser humano na bazófia íntima e subscrita de uma caminhada única e irresponsável, pela maioria absoluta e impotente de nossa querida gente.

Todo ser independe da sua vontade para realizar sua função objetiva e prosseguir, assim, o caminho único da vida comum e particular. Não que o imponderável seja simplesmente atado ao ponderável e ao imaginário, mas ao concreto e ao lúdico, visto que todo curitibano gosta desse alongamento patrimonial que nos é tão familiar e absoluto, a rua XV, e suas flores de primavera, seu enfeite brega de natal e sua alegria hibernal que incomoda aos moradores mais antigos e alegra ao turista, procurante incansável do motivo de tanta discriminação e recriminação daquela função maior e absoluta.
A Curitiba que todos viajam é aquela do avião que passa por cima, e que pousa mais ao sul, mais ao norte, mais a oeste e só não a leste porque seria acidente na serra. Quem sabe, um dia teremos um intercontinental também na Ilha do Mel, e a preservação ambiental dos casarões coloniais, recém construídos, despistem a imigração.

Nunca poderíamos nos esquecer dos fundadores e de suas maravilhosas carroças. A grande quantidade de coretibas que atraía constantemente os bons vaqueiros para o encontro de nossas bisavós e tataravós. Também nós, os filhos bastardos da passagem da boiada rumo ao norte, e do boiadeiro de bolso cheio rumo ao sul, sabemos da importância de nossas raízes hierárquicas, dos nossos brasões de família, e certamente, nos importamos com o que aconteceu ali, onde agora é basílica-menor, e já foi catedral, e já foi igrejinha de província, e também junto, e ao lado, e defronte, e dentro, e na Riachuelo e na praça do Ouvidor Pardinho, recantos de nossos ancestrais e remanescentes de muitos pinhões e coretibas. Business is business.

Não vem de papo, basta viajar para o interior e verificamos que toda cidadezinha é capital de alguma coisa sem importância: da Amizade, do Café, do Porco ou do Boi no Rolete, da Canção, da Simpatia, da Cueca Virada, Gay, da Lingüiça, do Cone Sul, Ecológica, enfim, todas as províncias são capitais de alguma coisa inútil, inclusive do Estado.

Em tempos de globalização, é muito bom lembrar uma antiga história que o velho Zepelim contava sobre um amigo, este ora vive, e há muitas horas, aliás décadas, em asilo de loucos. Ali na esquina da Muricy com a XV, um jovem delinqüente fugia desesperadamente de um rápido policial, numa perseguição que já durava vários quarteirões, aos gritos de pega, pega, e de tio, tio, dos personagens.

Mesmo com o início do “não me envolvo” curitibano, ocorrência registrada desde a vinda dos poloneses, que não gostam de ser chamados de polacos, sabe deus por quê, minha mãe, por exemplo, é uma polaca de zóio zur e coração de carne. Mesmo assim, o amigo do Zepe se envolveu e passou uma rasteira no delinqüente, daquelas que provocam uma aterrissagem forçada, com derrapada de mais de seis metros e com direito a manchar a roupa de caridade de vermelho.

Como curitibano gosta de dar roupa velha pros outros, e exibir pela última vez o antigo guarda-roupa e também de negar esmolas a mendigos obviamente bêbados!

O riso do tombo foi geral e os apupos duraram até o previsível tiro de misericórdia, dado na nuca, pelo policial – o delinqüente tinha quebrado a perna e animal não pode sofrer. Desde aquela época o amigo do Zepe está no hospício e o curitibano não se envolve.

Teria sido um problema de globalização? de 3a. onda? de privatização? de linha de montagem? de breing storning? de câmbio fixo ou flutuante? do neo-liberalismo? de congelamento? de neuro-lingüística? de reengenharia? de qualidade total? da teoria dos cinco ésses e funcionários com cara de bobo-alegre? de des-reengenharia? de final da história? ou um simples problema, insolúvel com quaisquer dos de cima, de má distribuição de renda e má versação das verbas de educação, habitação, fiscalização, segurança e saúde.

Muito chafariz … mas as pessoas gostavam, olhavam e desviavam. A Rua XV estava movimentadíssima, cheia de bundinhas bronzeadas, vindas de Matinhos e Caiobá, rebolando encobertas apenas por shortinhos ou sainhas veranis – exibidas e cínicas aos olhos dos viados e dos velhos tarados da boca maldita. Num movimento de impacto, o mímico, logo depois de passar a mão numa bundinha daquelas, girou em seu próprio calcanhar e desabou violentamente. Foi aplaudido, seu chapéu, no chão, cheio de moedas. A bundinha foi embora encabulada – 12 anos.

O assassino já estava na esquina da Muricy esperando o sinal abrir, com um fuzil embaixo do braço. As pessoas evitavam olhar para ele, como evitam olhar para qualquer um em Curitiba – assim o fuzil e ele e nós, passamos despercebidos por lá. Parou no Cine Ritz, o filme era ruim, a C&A estava cheia, apesar de ser tarde de sábado.

Seguiu até o edifício Wenceslau Glaser, entrou na Galeria Ritz, desceu as escadas que levam até o elevador e subiu até o 15o. andar, sem ascensorista. Nesse edifício azul que atravessa da XV até a Marechal, apesar de ter 19 andares, os elevadores levam as pessoas somente até o 18o., e o 19o., acessa-se por uma escada à esquerda de quem sai do elevador. Ele seguiu pela escada da direita que leva à sala de máquinas e encrencou todos os elevadores do prédio. Tirou uma granada do colete e destruiu as paredes da escada, bloqueando o acesso até o 18o. andar. Seguiu então até a outra escada, arrombou a porta de vidro e subiu os dois lances até chegar à cobertura, onde antigamente funcionava uma grande imobiliária e construtora de Curitiba, mas o governo, com seus planos maravilhosos e seus grandes e gordos ministros da fazenda, quase a faliu.

O corredor da direita dá para as janelas da Marechal Deodoro. Seguiu o da esquerda, passou por diversas salas até chegar na com janelas para a rua XV. Numa das vistas mais lindas de Curitiba, pegou a munição, colocou a luneta no fuzil e começou a atirar, a atirar e recarregar e atirar e atirar nos transeuntes láááááááááááááá… embaixo. Foram 178 tiros precisos e 178 mortos. Os não atingidos pelos tiros estranhavam aquelas pessoas deitadas ou deitando, mas passavam reto porque o curitibano, em geral, não gosta de se intrometer com os outros e afinal podia ser uma gravação do Faustão, ou do Sílvio Santos, ou do câmera indiscreta americano. Porém, uma dupla de guardinhas da Municipal viu aquela aglomeração de deitados e resolveu investigar o incidente.

Treinados que são em curitibamanias, notaram que aquilo estava muito estranho, não encontravam as câmeras de TV. Um dos guardas viu que o cravo na cabeça de uma das pessoas era um tiro. Procurou em volta, olhou para cima e uma bala perfurou seu olho esquerdo, explodiu sua nuca e espalhou seu cérebro pela calçada já manchada da rua XV. O outro policial vomitou e correu para abrigar-se na galeria Ritz. Pelo rádio, chamou a Central avisando do franco-atirador, ainda brincaram dizendo: pior se fosse mentiroso. Desfeito o mal entendido, a polícia foi acionada, e também a imprensa, que não deu muita bola, afinal há muito Curitiba já é uma capital de primeiro mundo. Os policiais, cônscios do dever, fizeram um cerco em torno da galeria. Foram 24 horas de cerco, os corpos já estavam fedendo.
Era verão, daqueles caudalosos em Curitiba. Dos corpos começou a sair sangue… e mais sangue, e mais, e mais. Do alto, podia-se ver os pinhões das faixas de pedestre e as pinhas da calçada serem inundadas por uma enxurrada de sangue. A polícia chamou a prefeitura e mandou construir barragens na outra Marechal, para que o sangue não se espalhasse. Barragens na Galeria Ritz, na C&A, na Muricy, na Oliveira Belo, estancando aquele rio de dois metros até o chafariz da praça Osório, pois, quem sabe, aproveita e mata a bicharada … e se o sangue estiver contaminado? … pensou sabiamente o Zepelim, um dos funcionários da Prefeitura, nas barragens. Providenciaram imediatamente o exame daquele sangue e, estranhamente, apesar da grande amostragem, ninguém estava contaminado, ou o resultado estava forjado, para não causar mal estar ao nosso serviço de saúde pública. Quando finalmente parecia que os bueiros iriam conseguir estancar a vazão do sangue, uma cachoeira vinda do 16º andar do edifício Wenceslau Glaser iria prolongar um pouco mais a enchente. 180.


A grande caminhada

Para quem passa pela Praça 19 de Dezembro, fica praticamente impossível não ver o painel de azulejo do nosso Poty. Foi um dos primeiro e ele continuou fazendo tantos outros que Curitiba devia ser chamada potyritiba. Com tanta gente boa (e o Poty é maravilhoso)… “pintou” mural prá fazer, vai pro Potv, e dane-se se ele já morreu, pega lá uns esboços velhos e faz um mural pós-morterno. Prá mais artista famoso?

VAGABUNDO TEM MAIS É QUE TRABALHAR, sempre foi o lema das nossas secretarias da cultura. Arte também é cultura! mas a cultura é multo mais chata, e Arte, um pouco mais difícil de administrar, fomentar e entender. Melhor ficar com a broa de milho de ingrata passagem, com os museus de utilidade duvidosa, ou com o conceito cretino, lançado por um prefeito obeso, de que artista da casa não tem massa cefálica, o velho santo de casa que não faz milagre, nem prefeito… Mas vá lá, papel em branco aceita qualquer coisa, até projeto inútil – ésé andar pela rua.

Os azulejos do Poty o baixo-relevo e as estátuas do outro artista de quem ninguém sabe o nome, sempre atraem a atenção. Algumas pessoas observavam aquelas obras de arte, quando senti¬ram o chão tremer a seus pés. Temendo que o monólito do centenário da emancipação, que um dos ditadores de plantão, junto com seus aspones, ergueram, fosse cair.,, engraçado, eles também, entre outras, fizeram. urna bandeira ilegal em Brasília, o prefeito de Curitiba que quer ser presidente, explodiram o Rio-Centro e tentaram prender, na década de setenta, um tal de Brecht no Rio de Janeiro – milico de ditador é assim, mata a cobra e esconde o pau … mas não, não era o monólito, era o homem nu – uma estátua modernista fora de época, de 10 metros de altura, começando uma lenta caminhada naquele exato momento, num entardecer daqueles dourados que só se vê em Curitiba. Os passos lentos e pesados daqueles dez metros de granito iam afundando o chão da praça e depois o asfalto da Avenida Cândido de Abreu, estremecendo toda a cidade. Perto dali, na Praça Tiradentes, o monólito da santa padroeira despencava – menos urna coisa para enfeitar a cidade, na ma XV as árvores bregas de Natal também tombavam com seus vasinhos – menos duas. O Antigo Relógio da Praça Ozório voltou ao seu devido lugar, o Presépio vivo não pôde fazer suas apresentações e as janelinhas de cuco não acenderam para a dublagem do banco que mostrava o bicho mas não criava – menos quatro. Houve outras conseqüências benéficas da caminhada, mas volte¬mos ao fato.

Num shoppingzinho boçal que curitibano adora, o pânico foi tamanho quando a estátua se aproximou, que até os mendigos conseguiram entrar lá, pela primeira vez desde a inauguração, sem serem expulsos. Os guardas solidarizaram-se uma vez na vida com a pobreza, e as madames, e os boçais “de menor” e os donos do Shopping, acharam por um instante que aquela solidariedade de último momento poderia mandá-los para o purgatório, pelo menos. No entanto, lentamente, o homem nu foi passando e se afastando daquela boçalidade, onde, baixada a pressão, os seguranças, gentil mente, e cumprindo ordens da administração – afinal eles nunca têm culpa de nada – expulsaram a pobreza como de costume, a porrada. Ficou, no entanto, um constrangimento claro na classe média, que acha que é rica, e nos donos do shopping, que são, por aquela estátua não ter se movido por eles.

A caminhada do homem nu continuou lenta. Alguns carros que entravam na Cândido de Abreu desavisadamente, tentando aproveitar o semáforo, já fechado há muito – afinal o que é um semáforo para um curitibano normal dirigindo um importado: – você sabe com quem esta falando? – davam de frente com a estátua. e ela nem dava a mínima. Alguns carros ficavam presos aos pés do homem nu e ele chutava-os para os lados. Lá foi um para o tribunal de pequenas causas. Lá foi outro para o fórum.
Surgiram, apavorados, todos os tipos de pessoas, fugindo de todos as saldas de todos os prédios da Cândido de Abreu; advogados, executivos, gerentes do Banco do Brasil, ofice-boys, milicos, políticos, lobistas e até gente honesta, entre essa gente, o Zepelim, que estava ali tentando consertar o fórum – nessa época ele não era mais valeteiro, já era pedreiro da prefeitura, e vendo o estrago que o homem nu fez, sé sabia pensar na trabalheira que iria dar para consertar, mas em compensação, quem sabe aparecia algum biscate de final de semana. Só não se viram debandada, os juizes, abarrotados de trabalho em suas varas, não pararam sequer o julgamento que corria, para verem o sucedendo, mas na semana seguinte acataram a reclamação do fórum contra o proprietário de um importado que invadiu e destruiu propriedade pública.

Naquela altura, um aparato de segurança, igual ao armado pelo governador contra os professores, já fora acionado para deter o monstro de pedra. Tudo em vão – que droga! funcionou tão bem contra os professores cm fúria.

A estátua se aproximava do Centro Cívico, acabara de passar pela Az de Espadas e pelo Jornal do Estado; nos tubos olhou curioso para ver o que as pessoas tanto faziam ali dentro, não entendeu, mas, naquele momento, uma pré-adolescente, que acompanhava a vovó aposentada no dia do paga¬mento, desapareceu do tubo misteriosamente e nunca mais foi encontrada ,, mais uma vitima da cidade, como vocês lerão na próxima história.
Adiante, na Prefeitura, apropriadamente ornamentada por um felino do João Turin, o homem nu agachou-se diante da rampa prefeitural e cagou um cocô de 300 e poucos quilos de merda, apesar de ser de pedra, limpou o rabo com as bandeiras, pegou o gato no colo e seguiu rumo leste para nunca mais ser visto.
Na Praça 19 de Dezembro, a mulher nua, que ficou separada anos de seu homem nu porque a comunidade se escandalizava com um casal peladão juntinho, em via pública, baixava a cabeça e escondia o rosto entre as mãos, pensando: Que vergonha. podia ter ido embora de noite que ninguém nem via


Conto Uma partida de vida ou morte

O Campeonato daquele ano foi muito disputado, mas o Ypiranga, tradicional time de 2ª divisão, não se deu bem. Prejudicado que foi pela arbitragem, não conseguiu desenvolver seu bom futebol de sempre e agora, parecia que o arqui-rival, o Iguaçu, seria o grande campeão (mérito conquistado depois de subornar os juizes da segundona, claro!). O empresário deles, dono de comércio famoso, resolveu chamar a. atenção da Província para o bairro Italianíssimo, através do seu clube apadrinhado. Verba não faltou, e a juizada, como sempre, colaborou. Bastava ao Iguaçu vencer a última partida, contra o Capão Raso e o Campeonato estaria garantido. Ypiranga quase chegou lá. Mesmo vencendo sua última partida contra o Trieste, seria apenas o segundo colocado. No Intervalo deste último jogo do Ypiranga, os jogadores, sabendo que naquele ano não soltariam os *escaravotchas para comemorar, estavam desanimados, apesar da vantagem de um a zero.
No vestiário, foram Intimados pelo técnico do Trieste – aliás, coisa perigosa para o adversário, cantar de galo em galinheiro alheio.

Acontece que o técnico deles veio para contar o que sucedera e ninguém sabia… O Iguaçu, para sagrar-se campeão e selar o conluio com os árbitros, regiamente pagos, teria que ganhar também sua última partida, contra o Capão Raso, que começara bem antes, garantindo o campeonato sem contar com a matemática… e isso todo mundo sabia, o que não sabiam ocorreu por desleixo da confederação de futebol, ou dos juizes, ou ainda por um contra-suborno de última hora. O juiz principal daquela partida (o vendido), não compareceu e, Iguaçu x Capão Raso, foi apitado pelo juiz reserva, um torcedor declaradamente Ypiranguense. Como o tal jogo tinha sido no campo do Capão Raso, time de brio e de torcida braba, o juiz vingador aproveitou e apitou quatro pênaltis para o Capão Raso e cinco perigos de gol contra o Iguaçu, impossibilitando-o de vencer a partida.

O jogo acabara há apenas uma hora. Já corria solta a churrascada dos capão-rasenses e, com a derrota do Iguaçu, se o Ypiranga vencesse, ainda assim, seria o segundo colocado, mas “se perdesse”, o Iguaçu não seria mais o campeão e sim, o Trieste, que perdia de um a zero para o Ypiranga. O Técnico do Trieste ,disse isso, saiu,.. e deixou o silêncio no ar.

Entrega ou não entrega a partida? pensavam todos. Os briosos do Ypiranga queriam de qualquer maneira vencer, já a turma do Toty, do Zepelim e do Pintado, também do Ypiranga, queriam mesmo ver o circo pegar fogo.

Começou o segundo tempo e de verdade, mas verdade mesmo, ocorreu o empate do Trieste num tiro indefensável desferido da entrada. da área. Aos poucos os triestenses se animavam e gritavam – vai time – sem real esperança, mas gritavam, afinal bastava mais um gol e o campeonato seria deles. A torcida do Ypiranga ficava se perguntando qual seria a melhor saída para aquele impasse, entregar ou não entregar? Já os olheiros do Iguaçu, em silêncio, achavam aquilo tudo maravilhoso – seu maior inimigo, o Ypiranga, seria o responsável pela grande conquista deles. E assim, neste clima de dúvida e apreensão, o jogo prosseguiu até os 44 minutos do segundo tempo, quando o centro-avante do Trieste, um polaco gambaia fez urna jogada brilhante. Envolveu todo o meio de campo, driblou o lateral e ficou frente-a-frente com o zagueiro do Ypiranga – o Zepelim – na marca penal. O goleiro não saiu e bastava driblar o zagueiro e o campeonato estaria garantido. Um sonho de mais de 10 anos, a poucos metros de ser realizado. O tal polaco, era o goleador do campeonato e único jogador indicado para times de primeira divisão. Sabia que era craque e não tinha medo da responsabilidade. Respirou fundo – naquela fração de segundo a certeza do momento de glória – ameaçou dar uma meia-lua vergonhosa no zagueiro, mas preferiu apenas tirar para o lado para chutar.

Zepelim, o zagueiro, conhecia muito bem o estilo do adversário, e no momento exato do chute, com um toquinho classudo, tirou a bola dos pés do artilheiro, que chutou o ar e caiu vergonhosamente um tombo inesquecível, enquanto o Zepe puxava o contra-ataque de misericórdia. Os olheiros do Iguaçu simplesmente não resistiram e gritaram a plenos pulmões – Ai, Zepelim…

Isso era demais! – Eles têm a petulância de vir aqui espezinhar a gente! – pensaram simultaneamente todos os Ypiranguenses. Zepelim, que já estava no meio de campo com a pelota, parou, sentiu a necessidade da reposta à afronta dos olheiros e, de calcanhar, entregou a bola nos pés do artilheiro adversário.
O Polaco não acreditava no que via, suava um suor de desespero. Novamente a sorte o botou na marca penal para a glória, e numa belíssima virada, de primeira, desferiu um tiro violento, arrojado e forte, só que completamente torto… a bola já ia saindo toda quadrada quando o goleiro do Ypiranga, numa cinematográfica ponte, desviou-a para dentro de suas próprias redes.

Os olheiros do Iguaçu voltaram uma hora depois com a patrulha da porrada – para fazer o tradicional ajuste de contas de final de campeonato. Mas não se registrou aquela briga como uma das mais justificadas da segundona. Aquele tipo de coisa era pinto e a briga virou mesmo é churrascada.

Gênero: Comédia
Texto: Luiz Carlos Pazello
Direção: Sílvia Monteiro
Elenco: Alisson Diniz, Célia Ribeiro, Jewan Antunes, Raphael Rocha, Fernando de Proença, Letícia Moreira e Denise Giussani
Ano: 1999
Teatro: Novelas Curitibanas e Cleon Jacques


Comentário Gazeta do Povo
Roberto Nicolato

Histórias de uma cidade

Contos estão no livro Passeio do Zepelim, de Luiz Carlos Pazello

UMA NOVA VERSÃO DA PEÇA FÁBULAS Curitibanas, de Luiz Carlos Pazello, estréia hoje, às 21 horas, no Teatro Cleon Jacques. O espetáculo difere bastante do apresentado no Festival de Teatro de Curitiba deste ano. “São trabalhos completamente diferentes”, avisa Pazello ao explicar que a peça será encenada pela Confraria Cênica Ltda, grupo de jovens atores paranaenses que também já havia apresentado essa mesma comédia em 1999, no Teatro Novelas Curitibanas.

Ao contrario daquela época o elenco agora é todo profissional”, conta o autor, explicando que a peça conta a história de uma Curitiba que já não existe mais ou nunca existiu. Ele classifica Fábulas Curitibanas como uma espécie de ficção-realista ou realismo fictício.

A peça dirigida por Silvia Monteiro é baseada em contos extraidos do livro O Passeio do Zepelim, de Luiz Carlos Pazello. Não só o elenco, como também o cenário e alguns contos são diferentes dos apresentados na última montagem. São cinco histórias com uma hora de duração e que se passam na Rua XV de Novembro.

Fábulas Curitibanas é encenada pelos atores Célia Ribeiro, Denise Giussani, Letícia Moreira, Alisson Dinis e Fernando de Proença.

“A nova montagem é mais direta e funciona como uma conversa de amigos. Está muito engraçada e torna o curitibano mais cúmplice”, explica Pazello, que também incorporou ao espetáculo mais dois personagens, o Dido e a Dida, que são clowns curitibanos.

Gazeta do Povo – Roberto Nicolato


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