O Boca Rosa


Sobre uma noite de insônia

O Boca RosaComeçou tudo em fevereiro. Um ano esperando, pensando, planejando, combinando. E a grana… vem da onde? Já, já acaba o pouco que ainda ternos… e o aluguel. . . as prestações de conta dos projetos. . . e o nosso salário… e… e… e se eu pensasse um pouco no Boca para relaxar? Veio o palhaço desconhecido na minha cabeça… veio um ser mole, desconjuntado, flutuando numa plataforma como um pequeno monólito.

- Sílvia, olha que imagem bonita…
- Que tal maior, Pazello? Belo cenário.
- Que tal um circo…?
- E se fosse só isso… ?

A Rocio gostou da forma, buscou o conceito da imagem. A suspensão, o desequilíbrio, o vetor chão, um palco sobre um palco e sob um palco. Fazer um outro palco. Fazer teatro. Vamos fazer.


Sobre uma briga antiga

O Boca Rosa é uma poesia. Primeira unanimidade.
O Boca é uma gracinha. Primeira desconfiança.
Boca é uma peça para qualquer idade, é só mudar umas coisinhas. Segunda…

O Boca é lírico, é vendável, é fácil de viajar, é um texto gostoso, é lindo… Era!!!
O Boca é uma poesia, primeira unanimidade.

Sou eu, é a Sílvia que faremos o Boca. Não se muda, não é pra qualquer idade.
Pode ter sido até por teimosia, mas o “texto gostoso” fala sobre duas mortes.
Não consigo entender como pode ser gostoso falar sobre morte. Ainda mais a morte de pessoas tão próximas – artistas.

Ali morava a desilusão, ali moravam duas vidas, quase, perdidas. Vimos o desencanto, a beleza de um não saber com certeza, se quer mesmo salvar o outro. Enxergarmos o desafio. A peça dita adulta. Nos vimos e nos mostramos a nossa equipe, eles enxergaram, se enxergaram. O Boca é uma gracinha. Faz graça com quem lê. Decifra-me ou eu te destruo.

Foi uma boa briga.


Sobre a morte de Ataualpa e o fim do grande irmão

A Rocio veio por acaso, A Fátima veio com certeza – ou seria o contrário.
Um dia antes, vimos o não Boca Rosa, e mostramos a nossa equipe, quase completa, faltava o Roberto. Parecia que mudara tudo. A Fátima viu a gente e o nosso momento na escolha, falou de coragem, a Rocio viu tudo. . mais difícil, mais gostoso, mais trabalho. A Fátima quis saber qual era a praia dela na montagem, ainda não sabemos. A Rocio finalmente viu que a praia é nossa, da equipe e de quem compactuar. Saiu em busca de material. A Fátima volta depois, acho que ela está confusa, PUDERA.

Desde o início do tal teatro moderno (isso já tem 100 anos), o teatro é a arte do diretor reler um texto e assinar o espetáculo como obra sua. Muitas vezes os atores ouvem: Vão lá e façam a sua parte, a responsabilidade se eles não gostarem é minha e não de vocês – mas a cara é nossa, e esta afinal é a arte do ator e do autor. Diretor virou sinônimo de Ditador, virou mais estrela que as maiores estrelas…
Ele pode … o resto obedece (resto mesmo)…

Esta é a minha peça – como se todo diretor fosse o único criador num espetáculo…
Ele acha que é o único ser inteligente na peça
Ele faz,
Ele acontece,
Ele ameaça,
Ele despede,
se não consegue dirigir ele proíbe a apresentação do espetáculo,
Ele,
Ele…
… ele não é mais criativo que o conjunto. Ele normalmente não é bom ator. Ele normalmente nem sabe o que vai fazer, descobre seguindo os passos criativos do elenco, para depois, quando a concepção já aflorou, tomar conta da criação. Poucos diretores ditadores realmente tinham um espetáculo pronto quando montaram seus “espetáculos autorais”. Para mim chega. Para Silvia chega. Pensamos ser a hora de, como diz a Silvia, cometer nossos próprios erros, afinal eu tiro o DRT de inteligência e criatividade, ela também e viramos ele…a única diferença é um zero a mais à direita no cachê…

E se…

O Boca Rosa não terá a centralização do diretor. O Boca Rosa partirá das necessidades do intérprete – qualquer um. O ator, o compositor, o coreógrafo ou diretor de corpo, o cenógrafo, o iluminador, o figurinista. Todos que tiverem uma necessidade serão os centralizadores da montagem. Um conflito de egos diriam os “situacionistas”. Um conflito de necessidades dirão os artistas. Necessidades se completam, egos só interessam a eles mesmos. Precisamos de artistas, não apenas de “executores” ou “reprodutores”. Existe uma frase do Grotovski que nunca entendi por completo:
“O Ator precisa ser santo…Se o ator for um santo, o diretor precisa ser duplo santo.”
Já é impossível ao ator ser santo, o ser humano é conflitante, imperfeito, improvável, para que então exigir o milagre do duplo santo? Vamos tentar resolver o impossível e deixar o milagre para A Igreja Universal do Reino de Deus.


No jardim das vaidades

O azul é amarelo, o verde não existe, agudo e grave não importa, sim quer dizer não Como é possível um mesmo idioma dificultar tanto a comunicação entre as pessoas? Como conseguimos nos entender no dia a dia? O que parecia um consenso no início do processo tornou-se um emaranhado de informações confusas e contraditórias para todos os elementos. do grupo, e ainda estávamos nas primeiras semanas de ensaio. Quem queria experimentar um processo diferente de criação, queria dirigir sem ser diretor e quem queria liberdade total, buscava um “líder” para dizer sim. Erro.

A compreensão do erro é dolorida e muito mais para quem tem certeza de que aquilo era o proposto pela unanimidade e não tínhamos a unanimidade, muito pelo contrário estávamos sós. O conflito de egos que sabíamos inevitável, apareceu como conflito de mesquinharias mínimas e muito “desimportantes”.

Começou pelo cenário, aliás apenas uma proposta de cenário. Um palco novo, que flutua e que tem suas leis ainda não descobertas. De cenário a totem, de totem a ícone, de ícone a símbolo, de símbolo a deus. Reverência ao impossível todos nós fizemos, e esquecemos do possível. Reverência novamente aos conteúdos – tantos são eles como tantos somos nós. Esquecemos do texto e seus conteúdos não descobertos.

Reverência ao plástico – quase este artificial, quase a operação de beleza, quase o movimento somente pelo espaço Esquecemos as formas plásticas como efeito, como apoio, como história como movimento sugerido pelo texto, como movimento sugerido pelo espaço cênico. VIVER É PERIGOSO…

Num determinado momento eu disse não vou tentar nesse trabalho, deixa pro outro. Temos uma diretora mais que competente, uma cenógrafa de renome internacional, um compositor, maestro, ator ainda mais renomado. Prá que…? Sílvia disse:

- Porque é isso que a gente disse que ia fazer, porque é por isso que nós discutimos tanto, brigamos, se eles não entendem… bom é uma coisa nova, talvez tenha muita gente no processo e cada um puxa para um processo. Vamos pela peça, ela vai mostrando o processo e os outros não terão mais a peça, só o processo. Deixa que eu faço um roteiro de direção e pronto.

Novidade no pedaço, um ovinho de Colombo. A salvação da vaidade, um lugar para cada coisa, cada coisa em seu lugar.

Gênero: Drama
Texto: Enéas Lour
Direção: Direção de Encontro
Elenco: Sílvia Monteiro e Luiz Carlos Pazello
Ano: 1996/1997
Teatro: Lala Schneider


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