O Sofá


O SofáEntre quatro paredes, um insone e seu duplo, tentam espantar o horror do vazio, sendo canibalizados pelos observaores.

Imagine-se num cubículo, com o nariz grudado a uma parede de acrílico, assistindo à agonia de um jovem enclausurado em exíguos 3x3m.

Depois de uma hora de audiência com o desespero humano, você é convidado a rever a mesma cena num outro recinto tão minúsculo quanto.


Da experiência ao método

Mais uma vez, estamos encenando através de uma Direção de Encontro; conceito de fazer teatral que criamos em 1996, com O Boca Rosa. Lá, estávamos Pazello e eu em cena; o papel de atores/interpretantes acumulado à funções de orientadores do processo e produtores. O Sofá, é a primeira experiência de Direção de Encontro como método aplicado. A Equipe de Criação estudou o Roteiro para chegar a um conceito filosófico e estético (Por quê, Como e Para quem seria montado o espetáculo); fizemos a análise dos conteúdos e informações individuais e então optamos pelas técnicas das quais lançaríamos mão para a estruturação do personagem (o mesmo, que seria feito por dois atores. Não igual, mas o mesmo); as técnicas de suporte para o processo (de aulas de acrobacia a conversas com um filósofo, sobre Física Quântica) e encerramos a primeira fase de ensaio com a definição da Concepção Cênica, firmada num Contrato (transcrito a seguir, neste programa) entre toda a Equipe; o qual nortearia todo o Trabalho. Após esta fase, cada membro da Equipe, dentro da sua especialidade técnico/criativa iria desempenhar o seu papel. Eu daria início à Segunda fase do ensaio com treinamentos formais (estrutura de interpretação), apresentando ao Lucas e ao Anderson a técnica de interpretação para o Ator/interpretante; a Ceres entraria em seguida com todo o suporte de (des)construção corporal; o Pazello na consultoria do Roteiro e os demais integrantes da Equipe, Arlene, Roberto e Nadja se reuniriam a nós nas sabatinas (semanais, e nem sempre aos sábados).

A técnica dá asas à criação

Os ensaios iniciavam com aquecimento livre. Os exercícios eram propostos. Os atores eram solicitados a executá-los dentro da sua compreensão. Após a sua execução eram discutidos, se necessário e/ou desejado, repetidos. Essencialmente, na Direção de Encontro os Interpretantes (atores ou demais criadores) devem ter o conhecimento claro da função e da meta de cada exercício aplicado, para que possa observar os resultados obtidos, apreender a técnica e atingir conscientemente os objetivos da Encenação. A Técnica não pode ser Secreta. Reter conhecimento é o princípio de uma Direção Ditatorial. O Ator/interpretante não é instrumento para execução da fantasia particular do Diretor.

Fases do ensaio de interpretação

  • Novas leituras do Roteiro Exercícios de Qualidade/ Ritmo/ Intensidade a partir dos substantivos do roteiro.
  • Exercícios de Qualidade/ Ritmo/ Intensidade a partir dos verbos do roteiro.
  • Improvisações associando Espaço/ Tempo X Qualidade, Ritmo, Intensidade com os verbos e objetos essenciais do Roteiro (sofá, cadeira, fósforo)
  • Estabelecimento do vocabulário – 1,2,3 e 4 (níveis de intensidade) – Forte x Fraco – Muito rápido x Muito lento
  • Sonorização das improvisações via ressonância (não da projeção do som).
  • Estabelecimento dos sons Cantarolar, resmungar e pensarolar.
  • Improvisações faciais a partir de máscaras de estados essenciais (medo, tédio, tristeza etc.)
  • Improvisações a partir de frases do roteiro com variações dos elementos acima
  • Improvisações a partir de frases do roteiro associadas a caricaturas típicas (bêbado, louco, tirano, vítima, etc.)
  • Improvisações a partir das ações do roteiro (sonorização agora sem palavras articuladas); associadas às características essenciais do solitário.A partir deste ponto, os atores já trabalhavam no espaço limitado de 3m X 3m (espaço cênico que teriam disponível). Eram solicitados a compor a estrutura das ações do roteiro (de três a cinco linhas por ensaio), para o ensaio seguinte.Esta estrutura era trabalhada e posteriormente avaliada pela equipe durante as sabatinas, num processo ao qual denominei Seleção de Imagens. A interpretação estava estabelecida; daqui para frente, era o espetáculo formal, em si, e a Equipe trabalhando conjugada.Os 360º – O encontro nO Sofá, me fortaleceu idéias acerca do fazer teatral. “Um espetáculo deve ter Unidade” – Sim, se este espetáculo for uma Quadrilha Junina, ou uma Parada para o Dia da Independência… Arte/teatro tem que ter Integridade de Conceito Estético/Filosófico, integridade/comprometimento com competência técnica para sua execução e criação com responsabilidade compartilhada. “O espetáculo está apodrecendo, precisa de estréia” … Arte/teatro não apodrece com três, quatro, cinco, seis meses de ensaio. Há o medo ou falta de consideração do ensaio mais profundo, de mais precisão, de mais domínio técnico formal afetivo. Há o medo de ensaiar os relacionamentos com o espectador. Entregar a obra pronta para o público. Absolutamente pronta. “Você não assistiu num bom dia… hoje o espetáculo não rolou…” O que é isto? Teatro/arte se apresenta inteiro, pronto, sempre o mesmo – sim, meus senhores, sei que a vida é movimento, que tudo a todo instante se transforma… – assim como nós, nunca somos iguais, mas somos sempre os mesmos. Deixemos ao público com seus mais variados conteúdos pessoais as possíveis variações de sensações, fora isso um espetáculo que “não rola” todo dia, é na melhor da hipóteses, uma obra inacabada ou pior, executada de forma incompetente. “O processo de criação desta peça foi muito prazeroso” … Por favor, meus senhores, me desculpem, mas se o artista remexeu, aprofundou, fuçou, se lançou, arriscou, ousou, criou, aprendeu … e não doeu… ou ele não é artista, ou ele só brincou. Criar dói. O prazer só vem quando a ansiedade criativa encontra uma técnica para se manifestar, e quando o artista domina esta técnica. Não podemos ficar à mercê de emanações do inconsciente e acertos causais. Milagres, Magias e Terapias fazem parte de outro departamentos, não nos interessam. “Esse texto era o que a gente estava a fim de dizer”… Isso é muito pouco. Fazer só por querer, é muito pouco. Teatro/Arte acontece quando se torna urgente, imprescindível que ele se concretize. Sim, meus senhores, precisar é muito mais do que querer. O nosso O Sofá existe hoje, desta exata maneira porque se tornou urgente que assim fosse.
    O Sofá é preciso.
  • Sílvia Monteiro, Diretora


    O Sofá foi um presente que a vida nos deu através do Pazello e da Sílvia. Já faz alguns anos, eles nos mostraram o roteiro e a partir daí foi uma loucura. Uma nova proposta de trabalho, uma coisa que era muito diferente do que sabíamos realmente fazer, que era cantar, tocar, alegrar, fazer fervo, falar,… Aliás falar era o que não tinha nessa nova proposta. Como contar tudo isso que o novo roteiro nos propunha?Foi quando começamos a nos encontrar, eu, Anderson, Sílvia, Pazello, Ceres, Arlene, Roberto e começamos a construir “O Sofá”.

    A preparação do personagem foi exatamente o oposto de “construir um personagem”, foi sim orientada pela Ceres, demolir, remover tijolo por tijolo os entraves dos músculos (dá-lhe acrobacia), idéias e inibições do ator que se interpõe entre nós e o papel, até que um dia, como num sopro de vento o personagem permeia todos os nossos poros.

    Daí veio o Roberto com sua composição tão minuciosa e bem estudada, perfeita – ele escutou e ouviu nosso corpo – é impressionante.

    A Arlene que sempre esteve conosco, muito detalhista, a cada dia com uma surpresa de decoração. A Nadja, iluminadísssima agora nesse momento de sua vida, sem falar no Tácito com seus gritos e doubles de corpo.

    Hoje estou feliz, muito feliz. Conseguimos, nós e equipe, realizar um novo espetáculo, um espetáculo de reflexão filosófica, profundo, sobre a condição de solidão a que todo ser se depara em algum momento de sua vida.

    Lucas Francisco, Ator


    Em janeiro de 1997 recebi o roteiro e o convite para fazer “O Sofá”, li muitas vezes e fiquei impressionado com a essencialidade do tema que, o autor levou 10 anos escrevendo. De vez em quando a gente se encontrava com a Sílvia e o Pazello para conversar sobre o projeto. E o tempo foi passando. Em janeiro de 1999 aconteceu a primeira reunião acerca do cronograma de trabalho.

    Iniciamos assistindo a um filme chamado Ponto de Mutação e fomos juntando idéias, expondo pontos de vista e indagando-nos sobre a proposta. Aos poucos formamos imagens com características da linguagem que iríamos rebuscar até chegar num molde, num croqui, ou numa maquete do espetáculo.

    Nessas reuniões já participavam, além de nós quatro, a Ceres, a Arlene e a Nadja. A Ceres comandou a jornada física do processo. Aquecimento em espiral nos planos baixo, médio e alto, aeróbico e emocional, O contact, o samurai, o conduzindo e conduzido, o equilibrista. Desenhos que percorriam dimensões em cruz – frente, trás, esquerda, direita.

    Nessa fase estávamos participando de aulas de acrobacia e consciência corporal com os irmãos Borges e mais exercícios aeróbicos e musculação.

    A Sílvia utilizava o texto do roteiro para descobrirmos vozes, tons, intenções e entoações e sensações diversas até que fossem surgindo os primeiros murmúrios e resmungos, cantoralação e balbuciação do “solitário”.

    As improvisações eram feitas apenas com uma cadeira, recebíamos uma leitura do roteiro feita pela Sílvia ou pela Ceres, ali surgiram elementos que foram utilizados lá na frente, na resolução de uma cena, por exemplo.

    Aos poucos fomos decorando o roteiro, marcávamos mais ou menos cinco linhas e montávamos em casa as cenas trazendo-as semi-prontas para o ensaio.

    A partir dessas cenas íamos elaborando e destrinchando as cenas, subdividindo-as em número de movimentos, cada movimento foi estudado e repetido dezenas de vezes nos seguintes padrões:

    1. Samurai, conduzindo, conduzido, equilibrista -
    2. Forte ou Fraco -
    3. Lento, rápido -
    4. Cantarolando, pensarolando, resmungando -
    5. Máscara – tédio, coitado, metido

    Começamos a juntar os corpos com as vozes que havíamos descoberto e fomos buscar nas máscaras do Teatro Nô algumas expressões que se tornaram mais tarde as caras do solitário.

    Quando começamos a marcar o espetáculo para valer mesmo, o Bürgel chegou e foi assistindo e dando suas impressões. As Sabatinas são ensaios feitos uma vez por semana onde toda a equipe vem assistir e discutir, aliás muito positivo e produtivo pois os contrastes surgem e são revelados bem antes da estréia, isso faz com que não haja surpresas futuras e cria uma unidade na equipe que trabalha separadamente.

    Assim conheci a Direção de Encontro da Confraria Cênica, que é um processo onde a linha de direção é encontrada a partir dos elementos característicos da criação de cada um da equipe, e são integrados pela similaridade de idéias que se harmonizam quando o encontro se dá.

    Oportunidade única de experimentar a musicalização da imagem criada para a representação, com sensibilidade e precisão do Maestro Bürgel. A Nadja por sua vez, super objetiva que é, criou uma combinação das cores de nosso solitário e fez a luz que é. A Arlene nos deu caras diferentes, no cenário, contribuindo para a compreensão da universalidade do personagem. E quando vimos estávamos com o espetáculo quase pronto há um mês da estréia, o que eu acho um orgulho para a Confraria Cênica, que já vem mostrando em produções anteriores que não brincam em serviço e nem dormem no ponto “de Mutação”.

    Astrologicamente o solitário está vivendo o seu primeiro retorno de Saturno, ainda bem que eu já passei o meu, porque é preciso subir os degraus da escada da transmutação para transpor os obstáculos do preconceito.

    Anderson Carlos, Ator


    O sofá é uma história de mais de 15 anos. Tratava-se de um roteiro/solo para ator, baseado em linguagem corporal, de tema atual: Um cidadão passa uma noite em claro (isso no tempo em que eu nem sabia o que era insônia) tentando afastar a morte que ronda-o ameaçadoramente. Aos 25 anos a morte parecia tão distante e a solidão não passava de um conceito engraçado, não de um perigo eminente.Então, apesar do tema urbano e complexo da solidão, acrescido da perene sensação de finitude, O Sofá era uma comédia… Engraçado…

    O riso, com o tempo e com a vida, torna-se mais doloroso e aquela comédia tomou contornos de Farsa Humana (que permanece escondida, enrustida e disfarçada nos bem ajustados mas à minha flor da pele).

    O palhaço aos poucos é substituído em minha fantasia por um herói trágico que luta contra o seu destino. Do auto de sua quitinete mobiliada esse herói observa a noite passar e espera.

    Seu passado tornou-se desinteressante como alternativa à solidão. O seu futuro não chega a ser sequer uma especulação. Agora ele enfrenta o nada (nem o passado indesejado, nem uma esperança de futuro), o pior momento da mudança.

    Num único instante nosso solitário se vê impulsionado a vasculhar o passado tentando fugir de uma morte, à procura de uma emoção verdadeira. Logo percebe que na memória moram apenas sombras e mentiras resultadas das decisões tomadas por um cego. A felicidade, ao nosso herói, parece uma sucessão de acasos fortuitos, de engrenagens autônomas e de anômalas bocas que devoram e destroem carne alheia, escape disso e seja feliz, conclui. A ele resta apenas esperar a noite passar, esperar a morte passar para poder dormir um novo dia e enfrentar mais tantas noites quantas forem necessárias, afinal, mesmo desarmado, ele resiste…

    O Sofá desde cedo foi um desafio. Tornar forte e consciente os corpos dos atores para que eles se transmutassem ao sabor do roteiro e de acordo com suas solidões mais profundas. Em seguida desconstruir tudo que pudesse ser chão-colo, que acomodasse e tirasse os personagens e os atores de sua jornada solitária. Descoreografar e apenas marcar pontos agudos que despertem as intenções e o seu lugar apropriado no corpo/ser. Indicar o lugar exato sem mostrar o caminho. É ali. Chegue nesse ponto por sua conta.

    Luiz Carlos Pazello, Autor


    A partir desse conceito, que estratégia usar? A primeira idéia já vinha dA Mulher, onde eles tiveram um primeiro contato com a técnica do movimento consciente criada por Klauss Vianna. Somado a esse recurso começamos a improvisar com verbos do texto utilizando técnica de contato e acrobacias. Ações sugeridas pelo roteiro executadas em contato com o outro, ou com uma cadeira ou elemento de cena qualquer, criando desta maneira um outro equilíbrio, outro ângulo, recriando as situações do texto. Isso desenvolveu uma simbiose com o espaço e com os elementos cênicos. A seguir acrescentar qualidades distintas para que as ações físicas acontecessem à margem do natural, sem ser “louco” ou impossível. Estranho e verossível. A essa natureza crível ainda foram acrescentados o Samurai e o Equilibrista, personagens que permitiam o trabalho de centralização, o eixo, a coluna vertebral do solitário. A eles se juntaram o condutor e o conduzido, elementos do espaço cênico onde os atores deveriam circular, dominar, submeter-se e determinar que amplidão estaria contida na quitinete.

    Estes elementos todos foram construindo uma espécie de escada, a qual os atores puderam subir graças à sua disciplina e desprendimento. Almas dessa técnica que seria só papel não fossem eles grandes animadores da vida do solitário que fragmenta esse Sofá tão nosso espelho. Solitário este, tão bem acompanhado.

    Ceres Vittori, Diretora de Movimento

    Gênero: Drama
    Texto: Luiz Carlos Pazello
    Direção: Sílvia Monteiro
    Elenco: Lucas Francisco e Anderson Carlos
    Ano: 1999
    Teatro: Novelas Curitibanas e Cleon Jacques


    Crítica GAZETA DO POVO
    José Carlos Fernandes

    Sinfonia da Solidão em Dois Movimentos
    Anderson e Lucas, da dupla Los Bonecos, fazem de O Sofá uma brilhante experiência cênica

    Imagine-se num cubículo, com o nariz grudado a uma parede de acrílico, assistindo agonia e um jovem engaiolado em exíguos 3m x 3m. Depois de uma hora de audiência com o desespero humano, você é convidado a rever a mesma cena num outro recinto tão minúsculo quanto.

    Se sua reação foi de claustrofobia, estranhamento e angústia à distância. Sílvia Monteiro e Luiz Carlos Pazello – diretora e autor de O Sofá, em cartaz no Novelas Curitibanas – alcançaram parte de seus objetivos: provocar nas pessoas alguma forma de ação-reação cênica. Ao vivo e em cores, claro, o espetáculo consegue mais do que isso – ele tira do âmbito do blá-blá-blá o discurso de que o teatro tem de ser visceral e arrisca colocar esta verdade ao rés-do-chão, ultrapassando a porteira que às vezes separa o conceito e o sistema nervoso central.

    Aos fatos. Na primeira cabine, simulação de uma quitinete em petição de miséria, está o ator Lucas Francisco, suando em bicas. Ele não diz palavra. No máximo balbucia nênias incompreensíveis que se misturam a roncos de automóveis, buzinaços e outros ruídos urbanos (mais uma faceta do engenheiro de som Roberto Bürgel, do estúdio curitibano Alma Sintética). Numa rapidez vertiginosa, oscila entre o desejo de estourar os próprios miolos e a irritação banal de quem arruinou o último fósforo com o qual iria acender o derradeiro cigarro.

    A despretensão de Sílvia em saltar dos males maiores aos menores, num estalar de dedos, acaba dando a senha para compreender O Sofá. E como se o encenador estivesse dizendo que a solidão é fatalmente uma viagem insana ao redor do umbigo.

    A segunda bofetada vem por acréscimo. A ética pessoal ultrapassa a moral universal nos poucos metros quadrados em que cada um dos atores convive com seus fantasmas de estimação, neuroses e faniquitos dignos de palmadas. Vê-se ali que se pode matar ou morrer por muito pouco — não importando se vida perdeu o sentido ou se a luz acabou e ficou difícil achar o interruptor.

    Mas que não se entenda esta proximidade entre o corriqueiro e o existencial como uma crítica à escala de valores do mundo moderno. Se caísse nesta tentação, O Sofá não passaria de uma incursão teatral vazia, datada e macetosa, cuja única genialidade estaria em ter amplificado – na inusitada trilha sonora de Bürgel de sentimentos sinceros a roncos no estômago.

    Sílvia Monteiro foge do lugar-comum ao criar imagens de impacto e, por vezes, indecortosamente belas. Ao vê-las de camarote, o público não consegue despistar o incômodo de encontrar prazer visual num inferno entre quatro paredes. Os televisores, inclusive, que ora distraem ora excitam os dois atores, funcionam como uma metáfora do voveurisnio contemporâneo, prática que ultrapassa o fetiche da fechadura porque ninguém precisa dela quando pode ler a revista Caras.
    Mas a gosma de banana, suor e saliva que Anderson exibe para a platéia se encarrega de lembrar que o olhar engana os sentidos. E como se de repente o nojo (somado ao medo do desemprego e de assalto, claro), tivesse se tornado o único sentimento real e comum a toda a espécie.

    A linha de “arte física” – com direito a tombos e proteção de cotoveleiras e joelheiras — suscita ainda uma outra reação atípica: o riso. E possível se divertir diante da tragicomédia dos dois rapazes cujo destino é se repetir. No quarto escuro e desarrumado da alma todos os gatos são pardos. A não ser que se consiga ler o que está escrito no diário que Lucas e Anderson escondem debaixo do sofá. Um segredo que, em boa hora, o espetáculo não se mete e revelar. E a esperança de que eles não estejam tão condenados a si mesmos. GGGG

    GAZETA DO POVO – José Carlos Fernandes


    Crítica – Folha De Londrina
    Francelino França

    No espetáculo “O Sofá”, da Confraria Cênica, de Curitiba, apresentado no Núcleo I na quinta e sexta-feira, um indivíduo tenta enfrentar um na noite em claro, com o fantasma da morte rondando sua porta. A história de Luiz Carlos Pazello dispensa texto. A encenação exigiu do público uma assistência fora do convencional, deixando-o como observador, em pé, encostado nas janelas de dois cubículos, que serviam de cenário. No primeiro quadro, o amedrontado insone (Lucas Francisco) tentava atravessar a noite e não encontrar a morte.

    No segundo ato, o outro ator, Anderson Carlos (numa interpretação mais convincente), repete a mesma cena, mas com pulsação diferente, o público assumiu o papel de mosquinhas magnetizadas na janela do apartamento, comprovando que o voyeurismo nunca é saciado, sempre clama por mais imagens. Naquele cubículo em que foi encarcerado o ator, o sofá personagem-título servia como testemunha e objeto utilitário da solidão. Nessa observação comportamental, o espectador-voyeur sentiu-se um pouco frustrado como Charles Darwin, ao constatar determinados fracassos na nossa escala evolutiva atual.

    O personagem, em ambas encenações, estava sintonizado numa freqüência acima do normal, O exagero proposital permitiu uma identificação da linguagem e decantar seu comportamento. O enjaulado e seu duplo foram instalados num autêntico laboratório de observação. Por trás do vidro, fica evidente o sofisticado nível da concepção cênica e a maturidade da equipe. Há uma integração das propostas de cada participante da Confraria, seja na cenografia meticulosa elaborada por Arlene Sabino, que conferiu ao duplo muquifo, um impressionante realismo; corno também na direção precisa de Silvia Monteiro e na preparação corporal da premia da coreógrafa Ceres Vittori.

    “O Sofá” se revela numa experiência espaço-tempo, pois coloca o espectador como observador em dois pontos distintos de um mesmo objeto, portanto relativos. A Confraria não apenas flertou com Einstein, mas fez um experimento concreto com a teoria da relatividade. De coordenadas distintas, cada observador faz a descrição desse fenômeno de maneira diferente. As informações sobre o insone são apenas as observadas. Há pistas no espaço de 3×3 para imaginar quem seria esse personagem. Num raio X imaginário, desse pacato cidadão, seria um assalariado, sem profissão definida, imigrante que veio tentar a vida na cidade grande, com que desconhecidos vizinhos vivendo nas mesmas condições. E certo deixou amores e família muito distantes e não possui amigos. A escolaridade, provavelmente primeiro grau completo. Vivendo situação limite, tentando afastar a morte que o ronda. Ele é pisciano (pela falta de organização) e flamenguista (pelos adesivos no guarda roupa).

    O Sofá exige do público uma dose extra de paciência. Numa interminável noite de insônia, o que resta é o tédio. Esse espelho nos mostra nossos momentos mais feios, até repulsivos. Definitivamente, não é um espetáculo agradável, mas, sem dúvida, uma proposta teatral refinada, com fôlego dramático. Ao final, depois do amanhecer, parece que o espectador passou uma noite toda acordado, com uma sensação estranha de que perdeu o norte. Mas entende que O Sofá não é espetáculo para descansar do cotidiano.
    Folha de Londrinha – Francelino França

    CONTO O SOFÁ que deu origem a peça de teatro

    Num entardecer.

    Uma janela com cortina puída por onde se desfazem os últimos raios do sol. Um sofá rasgado, um guarda-roupa, um móvel com televisão pequena, um velho tapete no chão e um calendário na parede compõem a pequena quitinete do edifício São Paulo.

    Um solitário em seu diário “coisas importantíssimas” e, lentamente, cai a noite – a falta de luz vai incomodando-o. Aproxima-se do livro tentando teimosamente continuar sua escrita. A luz esvai-se. Irritado, depois de um bom tempo, o solitário levanta-se e finalmente acende a luz do quarto. Senta-se novamente e termina num instante o que tinha que escrever Fecha seu livro e guarda-o como uma relíquia, primeiro envolto num pano, depois dentro de uma caixa de madeira com cadeado e, finalmente escondido embaixo do sofá.

    Não tem o que fazer. Olha para os lados como que querendo inventar algo Levanta se e liga a televisão. Começa a assistir e lentamente uma euforia toma conta do solitário espectador. Envolve-se totalmente na trama do programa que assiste, empolgando-se com as diversas variações emocionais. Entra o comercial e sugere diversas outras sensações ao solitário. Volta o programa e a mesma empolgação até que se vai esvaindo… volta o tédio. Vai se irritando com o desperdício de assistir televisão até que num movimento súbito desliga furiosamente o aparelho.

    O que fazer? .. . vira-se no sofá para todos os lados, incomodado, até encontrar uma posição “confortável”, onde fica descansado e satisfeito. Quase não conseguindo, apanha um maço de cigarros. Tira um com dificuldade e passa a procurar os fósforos. Constata que não estão em seus bolsos e, sem abandonar a “posição confortável”, procura-os a sua volta. Encontra uma caixa de fósforos bem a seu lado no sofá, mas é difícil pegá-la, tenta desesperadamente alcança-la até cair da “posição confortável”. Irritado, apanha o fósforo e imediatamente retorna a sua posição. Abre a caixa de fósforos com a dificuldade de quem está todo torto e, pasmo, percebe que resta apenas. um palito na caixa. Novamente cai da posição confortável, só que desta vez muito apreensivo, quase ansioso. começa a estudar a melhor maneira de acender o cigarro sem falhar na difícil operação. Experimenta de um jeito normal (porém sem riscar o palito) até ficar confiante, passa para outro jeito mais complicado, outro mais ainda, outro mais ainda, até que, acidentalmente acende o fósforo. Assusta-se com o fogo e joga-o longe. Pára, reflete longo tempo sobre o ocorrido e tem um ataque; grita, chuta coisas, pula e ainda em seu furor dá uma topada no sofá, cai, torce o tornozelo, bate a cabeça no guarda-¬roupas e cai no chão de bunda. Levanta-se de súbito e, já que fora ferido covardemente pelas costas, vinga-se em todos os móveis que o agredi¬ram distribuindo pontapés para. todo lado.

    Terminada a lição merecidamente aplicada, arruma mal e mal a sala, antes de apanhar o palito queimado, Senta-se no chão e olha estudando-o. Apanha a caixa de fósforos vazia e começa a chorar copiosamente. Chora, chora e vai se recompondo. Olha novamente para a caixa vazia e toma a chorar copiosamente. Novamente se recompõe, agora decidido a resolver o complicado dilema de como acender o cigarro. Vasculha toda a casa a procura de fósforos, nas gavetas e cantos, encontra os mais variados tipos de objetos – daqueles desaparecidos há muito – que vão ficando espalhados pela sala. Do armário tira lençóis, travesseiros, roupas e utensílios. Tira o fundo de uma gaveta, pensando ter encontrado a solução perfeita para seu problema. Apanha uma vassoura e começa a friccioná-la contra o fundo da gaveta (como um índio) tentando fazer fogo… tenta até a exaustão. Vencido, amassa seu cigarro e lança-o no meio da bagunça do quarto. Vai até o guarda-roupa e apanha comida, uma banana, e come olhando abismado a bagunça em sua volta. Resolve: Hora da Faxina. Apanha vassoura, balde, esfregão e demais produtos de limpeza de seu guarda-roupa e começa seu trabalho. Vai jogando desordenadamente as coisas para os cantos do quarto, mas vai abrindo caminho para a limpeza. Pega um aspirador de pó e liga-o na rotação invertida, imundiciando mais ainda o quarto. Arruma a posição correta do aspirador e recomeça a limpeza, girando em torno de si mesmo e enrolando-se no fio do aspirador, até cair todo enrolado, mas continua sugando a sujeira. Nessa altura, já cansado da limpeza e todo amarrado pelo fio, desiste e deixa a sua volta uma imundície ainda maior. Senta-se no sofá para descansar. Abana-se e encostado enfia distraidamente a mão na frestinha imunda do sofá, da onde tira nove moedas, 15 grampos, 5 clipes de diversos tamanhos, gomas mascadas, montes de papel de bala, subprodutos do que já foi menos orgânico, pipoca, um game eletrônico, uma geleca não identificada, um CD perdido e, para sua surpresa, um palito de fósforo de cabeça vermelha. Pula e grita como se comemorasse um gol do Brasil, animado, apanha a caixa de fósforos e o maço de cigarros. que haviam ficado no sofá. Porém, o maço está vazio, aquele também era o último cigarro. Num pulo começa a chafurdar no meio do lixo, nos cantos, cm cima do guarda-roupa, tentando encontrar seu derradeiro cigarro. Vai desanimando lentamente e também lenta, mas sinceramente, começa a chorar um choro comovido, doido, solitário e desamparado, como todos nós. De repente, o choro transforma-se num riso histérico que o imobiliza, nem tudo está perdido, afinal tinha encontrado seu cigarro, es¬tava ali, bem ao lado de sua mão.

    Acende o cigarro sem majores dramas, ainda rindo, e ainda rindo percebe que o cigarro está furado. Olha para o furinho com um olhar engenhoso. Revira a bagunça à cata de uma fita crepe das gigantes. Corta um pedaço que praticamente cobriria todo o cigarro. Vai medindo e diminuindo o tamanho da fita, um pouquinho de cada vez, até que sobra um pedacinho quase imperceptível, o qual heroicamente cola no furinho de seu cigarro. Começa a fumá-lo.

    Nisso o tédio já se instalou novamente.

    Olha á sua volta enquanto fuma. Vai se encasulando e se aprofundando em pensamentos intraduzíveis, ás vezes concordando com o que pensa, ás vezes discordando e, por vezes ainda, tomado por uma incrível dúvida a respeito do que pensou. Conclui disso tudo que a vida é assim mesmo, com um sonoro … É h!! Apaga seu cigarro, certificando-se teimosamente de que está mesmo apagado. Levanta-se, o cinzeiro na mão e “joga as cinzas no lixo”. O tempo passa e ele permanece parado ao lado do lixo. Liga nova¬mente a televisão, de ande sons sugerem um filme sexy. O solitário vai assistindo e excitando-se. Olha ao redor para ver se está realmente só, e começa a masturbar-se atrás do sofá, todo encolhido e por vezes olha em volta para ter certeza de que ninguém entrou para apanha-lo naquela situação. Enquanto se masturba sofre uma crise de cãibras na perna, vai saindo do esconderijo, rolando-se de dor e tentando levantar-se, começando uma nova sessão de batidas pelos móveis, mais os encontrões nos objetos deixados pelo chão. Vai passando a cãibra. Estica-se, volta uma pequena crise e se restabelece a normalidade. Fica longo tempo deitado no chão e vai sendo retomado pelo tédio.

    Ouve um grito. Pela.janela passa caindo a carpo de um suicida. O grito prossegue por longo tempo, só interrompido pelo baque mortal. Como se ele apenas tivesse imaginado aquilo, permanece imóvel olhando para… nós. Enquanto isso um estranho entra em seu quarto, olha a sua volta, não vê ninguém, pois nosso solitário está ao lado do guarda-roupa, fora de sua visão, vai até a janela e se atira. Novo grito longo, novo baque mortal e a mesma inércia do nosso solitário, como que deixando a morte passar.

    Agora ele está com medo. Procura um álbum de fotografias tentando se emocionar com qualquer urna das suas recordações. . . nada. Começa então a ligar todos os aparelhos da casa: aspirador, liquidificador, batedeira, barbeador, procurando sons para preencher aquilo. Aumenta todo o volume da TV, do rádio, dança, pula, canta para afugentar o pensamento que lhe ocorre. Mais uma vez passa um corpo pela janela, ele não ouve o grito por causa do barulho, mas ouve o baque, e este mais alto que os outros. No mesmo segundo caiu o disjuntor do quarto.

    No escuro os tropeções, batidas, xingamentos.. até que acende uma lanterna, Vai desligando os aparelhos e liga o disjuntor. Volta a luz. Como está imundo, resolve limpar-se, apanha uma toalha molhada e vai fazendo sua higiene pessoal. Re¬solve então lavar a cabeça, água e muita espuma de xampu. Toca o telefone, ele cego pela es¬puma, sai se batendo, tentando atender o tele¬fonema salvador. Toca, toca e para, no exato instante em nosso solitário consegue alcançar uma toalha. Entristece. Fica longo tempo grudado no telefone, esperando que toque novamente, em vão. Tira a espuma com um jarro d’água toca o telefone, novamente não consegue chegar a tempo. Novamente entristece, vai para a janela e fica olhando os prédios a sua volta. Grito, outro corpo caindo, ele estarrece e toca o telefone. Voa até ele, atende … Ha?….hahnm… ,hum hum… era engano.

    Senta-se no sofá, triste, apanha seu diário, lentamente vai amanhecendo e nosso solitário lentamente vai pegando no sono.


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